terça-feira, 23 de março de 2010

O que não tem vergonha (nem nunca terá)





Estou sentada em uma cadeira em frente à você. É um lugar romântico, que eu adoro, com velas acesas e onde os casais se encontram pela primeira vez, ou pela última.


Você fala sobre um passado não muito remoto. Quer se desculpar dos erros, tem explicações para tudo, se justifica. E tudo o que eu faço é te ouvir. E enquanto te ouço, olho para a sua boca. E a vejo se mover para produzir aqueles sons e palavras que para mim já não fazem mais diferença.


Digo apenas que aquilo não faz mais sentido. E enquanto você insiste em se justificar, eu continuo a olhar sua boca. E a imagino na minha, me devorando toda, com língua e dentes. E penso nos beijos loucos e na urgência em te beijar. Meu desejo é pular em cima de você ali mesmo, sentir de novo a sua boca, o seu desejo.


E tento mudar de assunto. E percebo o seu olhar fixo no meu decote, que não foi, obviamente, desproposital, nem uma coincidência. Foi escolhido a dedo, para despertar o seu desejo, para trazer da sua memória as lembranças daquelas noites e dias loucos em que nos pegávamos sem palavras, em que você me pedia para sussurrar as minhas fantasias no seu ouvido.


E eu te confessava os meus desejos inconfessáveis, indizíveis. Aquelas coisas recônditas, que eu tinha vergonha até de pensar. E percebia o arrepio da sua pele em me imaginar das formas mais inimagináveis. E me enlouquecia com a sua loucura.


Falamos de assuntos sérios e de alguns planos malucos. Você me contou do seu trabalho, e enquanto falava eu ouvia sua voz rouca me desejando e sentia o seu suor escorrendo na minha barriga. Me lembrei da sua excitação em me ver completamente entregue, mordendo o lábio e te pedindo para não parar nunca. Pensei nas sacanagens, nos gemidos, nos gritos que você queria cada vez mais altos. E que tudo acontecia sem hesitação, sem pudor, a qualquer hora e em qualquer lugar.


Ao entrar no carro, desejei que você me agarrasse, mas você se comportou bem. Me deu um abraço de despedida comportado, um beijo inocente e disse que tinha saudade. E eu retribuí da mesma forma. Mas o meu corpo gritava pelo seu. Queria a sua boca, as suas mãos. Queria que você arrancasse a minha blusa, me possuísse sem pedir licença. Eu queria explodir de gozo e sentir o seu desejo, mas o que tive foi um afeto inesperado. Eu queria paixão, tesão, êxtase, aquela pequena sensação de morte que incrivelmente faz a vida pulsar mais forte. Aquela confusão louca e inevitável entre paixão e amor, que faz com que a gente pense que morrer daquilo faz a vida valer a pena.


Fabi

2 comentários:

Alessandra Teixeira disse...

Suspiro longo e profundo.

Alessandra Teixeira disse...

Saudades dos seus textos.Escreva mais.