domingo, 30 de agosto de 2009

E tudo não passou de... (ou Poeminha para algo que não durou)

O encontro foi inusitado. Se conheceram de uma forma inesperada, quase inacreditável.

E o jogo da conquista começou. O frio na barriga, a expectativa, as esperanças de que tudo seria diferente agora. No primeiro encontro, falaram um pouco de si. Ele elogiou a profundidade do olhar dela. E disse que não queria mais sofrer. Ela, que há muito não via uma possibilidade, começou a se encantar. E foi envolvida, e teve saudades, e se surpreendeu, e pensou que finalmente conhecera uma exceção. Ele fez alguns pequenos planos, ela acreditou. E descobriram outras coincidências, como se o universo houvesse conspirado para que aqueles dois seres, de universos tão diferentes, se encontrassem.

Havia um passado. Ela teve medo, ficou insegura. Chegou a cogitar cair fora temendo que o tombo poderia ser grande. Mas resolveu encarar e dar uma chance. E não pensou mais naquele passado tão recente, e ainda tão presente.

E em pouquíssimo tempo, ela sentiu um êxtase físico e espiritual. Sentiu que poderia ser diferente. Os corpos se envolveram, como se tivessem sido criados um para o outro. Todos os carinhos se encaixaram, todos os beijos eram especiais, todo o desejo estremeceu. Riram-se um do outro. Dormiram e acordoram já com um aperto no peito de se separarem. Se falaram longamente por horas. Assuntos vários... Pareceram tão interessantes e interessados.

Mas não houve explicação para que tudo se dissipasse em poucas horas. Nem se sabe em que momento isso aconteceu.

Tudo começou rápido e acabou rápido. Sem palavras, sem discussões, sem explicações. Com um descompromisso que não parecia existir.

Mentira?
Sadismo?
Leviandade?
Medo?
Egoísmo?

À ela, restou aquela sensação de quem tem um sonho que termina mal... Daqueles que se acorda no meio da noite assustada, com o coração disparado.

Quanto a ele, não se sabe se foi o passado que voltou, ou se foi o futuro que assustou.

Aos dois, não se sabe se há mais um par, ou mesmo se um dia chegou a ser...


Fabi

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O buraco

E a vida, como não é uma linha, mas um círculo, colocou um buraco no seu caminho.
Numa terra desconhecida, completamente diferente, onde até os olhos não são iguais aos nossos, você caiu.

Mas os planos, os sonhos, as expectativas, a determinação não caíram com você. E a vida, essa mãe implacável e justa, que dá, mas que também tira, só queria te mostrar que os buracos existem, até te derrubam, mas não te deixam desistir.

Sem o seu pé esquerdo você não é nada? E o direito? - Disse a vida. Anda, levanta-te, corre atrás do seu sonho! Você vai desperdiçar isso? Eu nunca te prometi que seria fácil!

E você se levantou. Insistiu, sentiu raiva e medo. E viu coisas extraordinariamente belas e feias. Viu a a face mais nua da pobreza. Por toda a parte, em todo o lado. E viveu uma aventura...

E aprendeu que os buracos, as pedras, e até os abismos, estarão sempre no caminho, mas que eles não se alimentam de almas, nem de sonhos... só tornam o caminho mais belo...

http://www.mundadentro.blogspot.com/

(À minha amiga Lê, com quem compartilho tudo, inclusive os tombos e tropeços)

Fabi

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Eu sangro


Eu sangro todo mês. E às vezes, quando eu sangro, dói. Dói a barriga, dói a cabeça, doem as pernas, os peitos. Eu perco o apetite, ou ganho um pouco mais.
E quando eu não sangro, eu me preocupo. Aí, dói a consciência, dói também a cabeça, e também a barriga...

Eu sou cíclica. Bipolar, Tripolar, Polipolar. Um dia choro, outro me irrito, outro dou pulos de alegria.

E eu trabalho. E muito. E ganho menos. E se eu tenho um aumento, ou sou promovida, é porque estou dando para alguém. Então, a minha competência não é medida pelo meu esforço, ou pelos anos que eu passei com a bunda na cadeira estudando, mas pela minha disposição de oferecer favores sexuais a um figurão qualquer.

Eu chego em casa e lavo louça, lavo roupa, lavo o banheiro. E faço comida e supermercado.

Eu idealizo o amor. Espero o príncipe encantado. Tenho esperanças de o sapo virar príncipe. E se ele não vira, eu choro. E me lamento do tempo que eu perdi. E me conformo, e parto para outra. Com o coração partido por mais um amor que não era amor.

Eu espero uma ligação no dia seguinte. Um e-mail carinhoso. Uma mensagem no meio da noite. Um convite inesperado. Eu não tomo a iniciativa.

Eu aguento cantadas atrevidas na rua. Algumas me divertem, outras me enojam, me enervam.

Eu tenho medo de sair na rua e ser estuprada. Tenho medo de ficar para tia, de ser chamada de solteirona, mal-amada, mal-comida.

Tenho medo de não poder ser mãe, de passar da hora. Porque eu tenho prazo de validade.

E, sendo mãe, tenho medo de falhar. De não dar conta, de enlouquecer, de perder espaço no trabalho. E tenho medo de perder meu filho, de sentir a pior dor do mundo.

Tenho medo de ficar velha. De perder as pessoas que eu amo. De ser a última a morrer. E também de ser a primeira.

Não quero ficar sozinha. Quero fazer as escolhas certas. Quero comer chocolate e não engordar. Quero me tornar sábia. Ser interessante, inteligente.

Às vezes tenho vontade de sumir. De voltar para a barriga da minha mãe. De perder a memória. De não errar tanto. De não ter razão. Tenho vontade de ser louca, de ter mais coragem, de saber falar não.

É que eu sangro todo mês, e às vezes dói...

Fabi