segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Eu sangro


Eu sangro todo mês. E às vezes, quando eu sangro, dói. Dói a barriga, dói a cabeça, doem as pernas, os peitos. Eu perco o apetite, ou ganho um pouco mais.
E quando eu não sangro, eu me preocupo. Aí, dói a consciência, dói também a cabeça, e também a barriga...

Eu sou cíclica. Bipolar, Tripolar, Polipolar. Um dia choro, outro me irrito, outro dou pulos de alegria.

E eu trabalho. E muito. E ganho menos. E se eu tenho um aumento, ou sou promovida, é porque estou dando para alguém. Então, a minha competência não é medida pelo meu esforço, ou pelos anos que eu passei com a bunda na cadeira estudando, mas pela minha disposição de oferecer favores sexuais a um figurão qualquer.

Eu chego em casa e lavo louça, lavo roupa, lavo o banheiro. E faço comida e supermercado.

Eu idealizo o amor. Espero o príncipe encantado. Tenho esperanças de o sapo virar príncipe. E se ele não vira, eu choro. E me lamento do tempo que eu perdi. E me conformo, e parto para outra. Com o coração partido por mais um amor que não era amor.

Eu espero uma ligação no dia seguinte. Um e-mail carinhoso. Uma mensagem no meio da noite. Um convite inesperado. Eu não tomo a iniciativa.

Eu aguento cantadas atrevidas na rua. Algumas me divertem, outras me enojam, me enervam.

Eu tenho medo de sair na rua e ser estuprada. Tenho medo de ficar para tia, de ser chamada de solteirona, mal-amada, mal-comida.

Tenho medo de não poder ser mãe, de passar da hora. Porque eu tenho prazo de validade.

E, sendo mãe, tenho medo de falhar. De não dar conta, de enlouquecer, de perder espaço no trabalho. E tenho medo de perder meu filho, de sentir a pior dor do mundo.

Tenho medo de ficar velha. De perder as pessoas que eu amo. De ser a última a morrer. E também de ser a primeira.

Não quero ficar sozinha. Quero fazer as escolhas certas. Quero comer chocolate e não engordar. Quero me tornar sábia. Ser interessante, inteligente.

Às vezes tenho vontade de sumir. De voltar para a barriga da minha mãe. De perder a memória. De não errar tanto. De não ter razão. Tenho vontade de ser louca, de ter mais coragem, de saber falar não.

É que eu sangro todo mês, e às vezes dói...

Fabi

Um comentário:

Alessandra Teixeira disse...

Adorei. Que bom que escreveu de novo. Temos e' que sangrar o medo que impede de viver. Tudo bem por aqui, tirando as saudades imensas.